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EPISÓDIO 1 - O DIA EM QUE O TEMPO PAROU

  • Foto do escritor: Enzo
    Enzo
  • 22 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 29 de dez. de 2025

SONG




Quando, depois de quase cinco anos, voltei a pisar em solo siciliano, o ar tinha um cheiro diferente daquele que eu guardava na memória. Mais maduro. Mais denso. Como o último calor de um verão que se recusa a dar lugar ao outono. O vento passava morno pela minha pele, trazendo poeira e aroma de oliveiras, e em algum ponto distante eu ouvia o eco profundo do Etna: uma respiração antiga e lenta que me lançou de volta à infância.


Eu tinha dezenove anos e, ainda assim, me sentia mais velho do que deveria.

Nova York não tinha me transformado: apenas me cansou.

Barulho demais, pressa demais, excesso de coisas que se podiam comprar, mas que não tinham significado algum.

Pouca terra sob os pés. Pouco céu que realmente fosse seu.


Voltei porque meus avós tinham morrido: primeiro meu nonno Giuseppe, poucos meses depois minha nonna Angela. Alguém precisava cuidar das terras. Os olivais que eles haviam cultivado por décadas estavam abandonados quando cheguei. Pássaros demais tinham devorado a colheita, mãos de menos tinham feito o trabalho. Colhi as poucas azeitonas que restavam e vendi a um produtor de azeite. O rendimento foi pequeno. Mas, junto com o dinheiro que meus pais mandavam da América, dava para viver. No limite, mas livre.


Meus pais ficaram em Nova York, determinados a perseguir o sonho americano.

O meu estava aqui.

Sob esse sol. Nessa terra. Nesse vilarejo que, apesar de tudo, continuava sendo casa.


O vilarejo tinha pouco menos de mil habitantes: grande demais para conhecer todo mundo, pequeno demais para ser anônimo. Chamava-se Sant’Alfio.

A rua principal era poeirenta e cheia de vozes, crianças corriam, mulheres se inclinavam das janelas observando tudo com aquele olhar atento que só as mulheres sicilianas têm. À noite, os homens jogavam cartas na praça, fumavam e discutiam alto.

Tudo era familiar.

Tudo parecia igual.

Só eu não era mais o mesmo.


Instalei-me na casa dos meus pais, que agora era só minha. A casa ficava no centro, na Via Francesco Crispi — onde, mesmo ao anoitecer, as vozes pareciam ficar presas sob as janelas. O trabalho nos campos era pouco: pouco demais. Muitas manhãs eu não sabia o que fazer com as mãos quando as poucas árvores não exigiam cuidado algum.


Naquela tarde, decidi ir pela primeira vez em meses à casa dos meus avós. Ela se erguia mais acima, na beira do vilarejo, na Via Nucifori — mais silenciosa, mais arejada, mais próxima do olhar aberto do que do barulho. Não sabia exatamente o motivo. Talvez porque chega um momento em que não dá mais para fugir da memória. Talvez porque, enfim, eu tivesse força para abrir as portas e respirar o cheiro do passado deles.


As pedras da viela queimavam sob minhas sandálias. Cigarras zuniam, um cachorro latia, em algum lugar pratos batiam. O sol já não estava tão alto e derramava uma luz dourada sobre os telhados quando virei a última esquina e então o vi pela primeira vez.

Ele estava agachado na penumbra, diante da casa dos meus avós.


Uma gata preta estava enroscada a seus pés, que ele acariciava distraído. Aquele homem foi a primeira coisa, em meses, que me tirou o fôlego.


Parecia uma daquelas estátuas gregas, talhada em pedra e, ainda assim, viva: ombros largos, costas fortes, braços que contavam histórias de trabalho. O torso estava nu; musculoso. Forte. Um véu fino de poeira cobria sua pele. A calça era solta, bege, como a dos trabalhadores do campo e pescadores dali. As panturrilhas chamavam atenção pela força. No tornozelo, um fio dourado delicado cintilava à luz como um aviso ou uma promessa. Incomum, mas afirmativo.

Esse brilho puxou meu olhar para seus pés descalços. Firmes na poeira: grandes, terrenos, pesados.


A gata se aninhava em seu tornozelo como se aquele fosse o seu lugar.

Eu parei. Não me movi.

Algo em mim sentiu que eu estava prestes a interromper um instante que não deveria ser tocado.


Então ouvi sua voz.


Grave. Áspera. Quente.

Como um instrumento que só se toca no verão.


“Ei, bella”, murmurou para a gata. “Quem é você, afinal? Talvez eu devesse te dar um nome… você sempre volta para os meus pés. Talvez goste de mim.”


Ele riu baixo: um riso que eu senti mais do que ouvi.

A gata ronronou.

E, por um instante, desejei ser ela.


Quando finalmente criei coragem para seguir adiante, as pedras rangiam sob minhas sandálias, altas demais, traidoras. Giorgio levantou a cabeça e se pôs de pé. Olhou para mim. Seu rosto era absurdamente bonito. Masculino. Barba cheia, cabeça raspada. O homem mais belo que eu já tinha visto. Meu coração bateu forte. Eu disse “ciao” e, nervoso demais para sustentar seu olhar, me agachei diante dele, fingindo interesse pela gata aos seus pés. Era só um álibi. Um pretexto para os joelhos moles que ele me causava. E ali estava eu, diante dele, olhando para seus pés.


Naquele exato momento, na poeira, na luz quente, ajoelhado diante dele, algo em mim mudou. O mundo ao redor se apagou, como se alguém tivesse fechado uma porta: os gritos do vilarejo, o zumbido das cigarras, até o distante rumor do Etna. Restaram apenas minha respiração e a presença dele.


Ele estava ali, diante de mim, grande, tranquilo, como uma rocha sob o calor e, ainda assim, havia nele uma força que não precisava ser vista para ser sentida. Era a calma dentro do fogo, um silêncio não vazio, mas imenso. Um homem moldado pela terra e pelo sol, tão naturalmente forte que, diante dele, minha própria forma parecia transparente.


E algo se abriu em mim.

Uma fome que eu nunca tinha nomeado.

Um desejo que não nascia do corpo, mas de algo mais fundo.


Um desejo de servi-lo.

De sustentá-lo quando estivesse cansado.

De ser sua sombra quando o sol fosse forte demais.

O chão sobre o qual ele pudesse pisar.


Eu, que tantas vezes me sentira vazio, sem tarefa, sem direção, senti de repente um sentido. Não porque ele exigisse algo, mas porque sua simples presença me preenchia e, ao mesmo tempo, me esvaziava. Como uma folha ao vento, que não escolhe, apenas segue, porque precisa seguir.


Ele era a força. Eu era o movimento.


E nessa constatação não havia dor, apenas libertação.

Ali estava eu, ajoelhado, aparentemente por causa da gata, mas, na verdade, porque meu corpo já tinha entendido aquilo que minha mente ainda precisava aceitar:


O tempo parou.

Eu parei.

E só restava em mim uma coisa: o desejo ardente e silencioso


de estar com ele.

diante dele.

de lhe pertencer.

 
 

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