top of page
Buscar

EPISÓDIO 14 – COMO UM DEUS

  • Foto do escritor: Enzo
    Enzo
  • há 21 horas
  • 7 min de leitura


Dois homens chamativos. As vozes deles tinham desaparecido. O Fiat cinza tinha desaparecido. Mas as palavras ficaram.


“Depois de amanhã.”


Nem uma frase inteira, e mesmo assim aquilo girava na minha cabeça como uma roda que não se pode parar. Depois de amanhã. Dois amanheceres. Duas noites, duas vezes deitar, duas vezes acordar — e então aconteceria algo que Giorgio tinha dito, algo que o homem do cigarro voltou a pressionar no meu ouvido como um carimbo. Algo que os dois homens de terno exigiam dele sem dizer em voz alta.


Olhei para a porta em frente. Estava fechada.

Fechada como se tivesse me deixado do lado de fora. Não com pressa, não fugindo. Antes com aquela calma que pesa como uma tampa. Como se ele tivesse encerrado a cena como um livro que não se pode deixar aberto, porque alguém poderia ler.


Pouco antes, apenas aquele leve aceno de cabeça. Foi tudo. Um sinal mínimo, tranquilo: Eu te vi.

Ou talvez apenas: Olhe para outro lado.


E eu… eu tinha visto.


Demais.

Ou de menos.


Lá fora o ar já estava quente, embora ainda fosse manhã. A Sicília não é paciente. Fica quente rápido, clara rápido, tudo cedo demais evidente.


Afastei-me da janela, me vesti e fui para a cozinha, como se andar pudesse ajudar. Como se o movimento pudesse organizar os pensamentos. O piso de pedra sob meus pés estava agradavelmente fresco. A casa dos meus avós respirava no próprio ritmo, rangia de leve, como se quisesse me lembrar: Você está sozinho, rapaz. Cuidado.


Sobre a mesa estava o jarro de barro que eu tinha enchido na noite anterior. Servi um copo e bebi. A água já não estava fria. Estava morna, quase quente, e tinha gosto de barro, de terra, do próprio recipiente que a guardava.


Bebi mesmo assim, como se pudesse engolir a pressão no peito.


Mas em vez de calma, ele voltou.


Giorgio.


Não como um pensamento educado que bate à porta, mas como uma imagem já presente. Grande. Pesada. Inabalável. Eu o vi outra vez ajoelhado na fonte, pegando água com as mãos e bebendo como se a sede fosse algo que não se negocia. Vi o peito dele brilhando na luz. Vi a água escorrer pelo pescoço e pelos ombros, como se quisesse lavar o calor para fora de si.


E depois — pior, muito pior — eu o vi junto à árvore, de pé, pernas abertas, natural, como se o corpo dele fizesse parte de um ciclo sobre o qual não se fala e que, ainda assim, determina tudo. E minha cabeça fez o que sempre faz quando não tem saída: transformou aquilo em algo proibido. Algo sujo. Algo que não deveria entrar em palavras.


Senti em mim um calor que não tinha nada a ver com o sol. Era inevitável.


Era como se Giorgio fosse uma chuva de verão. Não se pode segurar, e mesmo assim deixa tudo em mim úmido, macio, receptivo. Ela simplesmente cai, e eu não posso impedir. E depois eu já não sou o mesmo.


Coloquei o copo na mesa.


Pensei outra vez nos homens. Eu ainda podia vê-los como se estivessem ali na cozinha.


Eu sabia que tipo de homens eram. Não “homens de negócios”. Não “visitantes”. Não simples estranhos. Não era preciso ter crescido na Sicília para entender.


Os ternos eram claros. Não porque o tecido em si seja perigoso, mas porque existe uma elegância que não quer ser bonita, quer ser superior. Que não pede, determina. E essa elegância o magro vestia como se fosse parte da própria pele. O outro — o largo com o cigarro — era o oposto: não polido, não fino, e exatamente por isso mais ameaçador. Um corpo que não precisa explicar nada, porque se for preciso explica o que é dor. E um Fiat num vilarejo como o nosso não é apenas um carro. É um aviso.


Eu disse a mim mesmo: Você não pode ser um deles.


Disse com dureza, como uma oração.


Eu não sou assim. Eu não quero ser assim.


Mas na Sicília às vezes se torna “um deles” mais rápido do que um piscar de olhos. Não é preciso pertencer. Basta estar no caminho. Ou possuir algo que um deles quer. Ou estar na janela errada na hora errada.


Eu tinha voltado para colher azeitonas, salvar campos, arejar uma casa que ainda cheirava a Nonna Angela. Não para ser puxado para coisas que acontecem na escuridão. Eu tinha dezenove anos. Estava cansado do barulho de Nova York, de onde fugi assim que tive oportunidade. Eu só queria paz.


E, no entanto… não foi exatamente essa palavra que ele usou?


Paz.


“Aqui em cima você nunca vende só frutas”, ele disse. “Você vende também um pouco de… paz.”


Eu não tinha entendido. Assenti porque não queria interrompê-lo, porque a mão dele na minha perna fazia mais barulho dentro de mim do que o sentido das palavras.


Agora, à luz daquela manhã, eu entendia bem demais.


Talvez fosse isso.


Talvez aqueles homens fossem os que vendem “paz”.


E talvez Giorgio… fosse um deles. Ou pelo menos estivesse perto o suficiente para saber exatamente o que acontece quando não há paz.


Apertei os dedos na borda da mesa.


Se ele realmente… se ele realmente fosse assim — o que eu seria para ele?


Um rapaz que ele chamou de “rapaz”. Que levou ao campo. A quem deu maçãs. Que no sonho dele estava de joelhos. Não como eu queria entender.


Eu vi de novo o rosto dele quando olhou na minha direção enquanto eu acenava da janela.


Liso.


Sem sorriso.


Sem “Enzo”.


Só pedra.


Como se por um segundo tivesse me apagado da vida dele para proteger algo maior — a si mesmo, os homens, a verdade, um plano, tudo junto. Ou como se tivesse me ordenado sem palavras: Não veja. Não saiba.


O que vai acontecer em dois dias?


E imediatamente uma parte mais escura respondeu: Talvez ele tenha que resolver algo.


Não “um compromisso”. Não “um acordo”. Algo que não se diz em voz alta.


Pensei na frase do galho: “Se você não vende, paga do mesmo jeito. Só que de outra forma.”


De repente não era mais um enigma. Era uma ameaça com data marcada.


Depois de amanhã.


E mesmo assim, enquanto eu imaginava homens, prazos, ameaças, talvez violência, havia outra frase dentro de mim, suave como uma oração e perigosa como um pecado:


E, ainda assim… eu me ajoelharia diante dele.


O que quer que me espere. O que quer que aconteça. Eu sentia essa verdade absurda: eu arriscaria. Não por coragem. Porque não consigo escapar dele. A cabeça gritava não, mas o corpo concordava.


O amor, como a gente chama para parecer mais inofensivo, é um péssimo juiz. Ele diz: Não olhe tão de perto. Diz: Ele deve ter suas razões. Diz: Se ele é escuro, eu serei a noite que não o trai.


Eu me odiava por estar tão disposto a aceitar nele aquilo que em qualquer outro homem eu teria lido como aviso.


A janela voltou a me puxar.


Não porque eu quisesse, mas porque eu não podia evitar.


Afastei a cortina um pouco. Meu fôlego ficou preso.


Do outro lado da rua ele estava sentado. O sol ainda não estava alto, mas já o tocava. Pousava nos ombros dele, tornava a pele dourada, e de repente ele não era apenas um homem numa cadeira.


Ele era… algo que parecia a razão pela qual as coisas existem.


Eu não conseguia desviar o olhar.


Giorgio não era apenas bonito.


Ele era a alma da criação em carne e osso.


Como um deus, pensei.


Não porque eu fosse religioso. Não porque eu acreditasse que ele fosse sagrado.


Mas porque meu corpo, perto dele, se comportava como se finalmente tivesse encontrado algo que pode seguir.


Senti uma leve tontura.


Ele se mexeu um pouco, passou a mão pela barba, e dentro de mim foi como se até as sombras concordassem.


O que quer que aconteça em dois dias — dinheiro, ameaça, violência, uma conta a pagar ou a cobrar — meu corpo dizia apenas:


Não importa.


Se Giorgio era um deles, então era.


Se ele fazia o trabalho sujo para eles, se intimidava alguém, se tirava a paz para ensinar que ela precisa ser comprada, era terrível.


E, mesmo assim, no instante seguinte eu seria outra vez aquele que se ajoelha diante dele.


Eu odiava isso.


E não podia mudar.


Deixei a cortina cair.


Eu precisava fazer alguma coisa.


Um pensamento da noite voltou.


Uma carta.


Anônima. Sem nome.


Não para exigir nada. Só para colocar no papel o que queimava dentro de mim antes que me consumisse.


Eu não tinha ninguém em Sant’Alfio.


O papel teria que ser minha testemunha.


Abri a gaveta da pequena escrivaninha. Encontrei uma folha vazia, quase da cor de osso. Um lápis curto.


Peguei o lápis.


Lá fora Giorgio ainda estava ali.


Como se escreve para um homem que é mais do que um homem?

Uma tentação de carne. Uma luz que não empalidece à luz do dia. A estrela da manhã.


Lembrei de algo que tinha lido em Nova York. “Estrela da manhã” — um nome que pode carregar Lúcifer e Jesus. Tentação e salvação.


Era exatamente assim que ele parecia.


Pecado e redenção na mesma figura.


Baixei o olhar para a folha.


Aquilo não era texto.


Era confissão.


Cada palavra dentro de mim vinha de cabeça baixa.


Lá fora ele esticou levemente os dedos dos pés ao sol, e meu corpo respondeu antes do pensamento. Macio. Pronto.


Eu queria servi-lo.


Minha respiração ficou rasa.


O lápis tremeu sobre o papel.


Fechei os olhos por um instante.


Quando abri, a folha ainda estava ali.


Vazia.


Esperando.


Respirei fundo.


Eu não sabia se algum dia lhe daria aquela carta. Talvez a queimasse. Talvez a escondesse. Talvez eu fosse covarde.


Mas eu precisava escrevê-la.


Desde que Giorgio sabia o meu nome, algo em mim não podia mais voltar atrás. Como se com um único olhar ele tivesse me deslocado da minha vida antiga para uma nova, em que eu não podia mais fingir que não tinha fome.


Lá fora ele estava sentado como um deus.


Aqui dentro eu estava sentado, incapaz de fugir.


Minha mão se ergueu outra vez.


E eu soube que derramaria meu coração sobre aquele papel.


Por ele.

 
 

Share Episode

bottom of page