EPISÓDIO 8 – ESTOU PRESO EM SUA REDE
- Enzo

- 18 de jan.
- 3 min de leitura
CANÇÃO
CONTO
Giorgio estava deitado sob a oliveira, dormindo.
De costas, com os braços soltos ao longo do corpo, como se mesmo no sono não houvesse nada do que precisasse se defender. O tronco estava nu. A pele ainda morna do dia, um leve vestígio de suor acumulado nos sulcos dos músculos. A luz atravessava as folhas e deslizava lentamente sobre ele, sem pressa, como se o próprio sol o observasse repousar.
Sua respiração era profunda e regular. Pesada o bastante para puxar tudo ao redor para o seu ritmo.
Eu estava perto dele. Perto demais.
Tão perto que meu corpo reagiu antes do pensamento. Meu olhar ficou preso nele, capturado. Nos braços, naquela densa rede de veias claramente visível sob a pele. Grossas. Tensas. Calmas. Linhas que não explicavam nada e, ainda assim, diziam tudo. Por baixo delas algo trabalhava, lento e seguro. O sangue correndo no compasso do coração. Vida que não se escondia.
Essa rede me prendia como um peixe que se debate. Silenciosa. Implacável. Ele era o pescador em repouso que lançara a rede sem saber o que havia ficado preso nela.
Ele estava ali, imóvel, pesado, inteiro em si mesmo.
Eu era quem se debatia.
Quanto mais eu o observava, mais claro ficava que não havia saída. Não dele. De mim mesmo. Da minha natureza.
O desejo de tocá-lo não veio como pensamento.
Veio como movimento.
Minha mão foi mais corajosa que minha mente. Mais honesta. Sabia que ele dormia, sabia que nada aconteceria se o tocasse apenas por um instante. Já se desprendera de mim, como se tivesse decidido há muito tempo.
Pouco antes de meus dedos alcançarem sua pele, eu parei.
Isso me deu medo.
A forma como meu corpo reagia a ele me deu medo.
Mesmo dormindo, ele segurava cada fio do meu corpo em suas mãos. E se acordasse. E se percebesse o movimento, o olhar, a proximidade. Eu não podia correr esse risco. Não devia.
Eu precisava me proteger de mim mesmo.
Levantei-me, fui até a camisa e a vesti. Sentei-me mais afastado. Forcei a respiração a se acalmar, forcei o olhar a se afastar, embora o corpo resistisse. Tentei, conscientemente, não olhar. Controlado. Eu sabia que a proximidade dele me denunciaria. Fiz isso para não fazer nada que fosse honesto demais. Para conter o desejo por meio da distância.
Mas meus olhos tinham vontade própria. Repetidas vezes voltavam para ele. Para os pés e panturrilhas nus, para a mesma rede visível ali também. Viva. Tensa. Como se o corpo dele falasse a mesma língua em toda parte. E a cada vez isso me puxava um pouco mais para perto, sem que eu me movesse.
Os dedos dos pés dele se contraíram levemente.
Então a respiração mudou. Uma inspiração mais profunda. O sono começou a soltá-lo.
Envergonhado do meu próprio desejo sem freios, baixei o olhar para o chão.
Quando tornei a olhar, Giorgio estava de olhos abertos. Piscou contra a luz entre as folhas, viu primeiro o céu, depois a mim. O olhar ainda pesado de sono, mas desperto o suficiente para notar a distância que eu criara.
Ele não disse nada.
Sentou-se e se espreguiçou, bocejando. Não para mostrar nada. Porque o corpo exigia. Com o movimento, os músculos se contraíram e a rede de veias se destacou com clareza sob a pele fina, crua, presente. Passou a mão rapidamente pelo rosto, como se afastasse o sono.
Depois se levantou. Devagar. Pesado.
E veio na minha direção.
Passo a passo.
Os pés pousavam firmes na poeira, largos, seguros. A cada passo ele tomava o espaço que eu havia criado, preenchendo-o com presença, com corpo, com uma calma que não recuava. Eu não conseguia desviar o olhar. O pulso acelerou. Meu coração era a única coisa que eu ouvia.
Ele parou muito perto de mim. Tão perto que senti o calor. Tão perto que o cheiro de homem e suor me alcançou. O olhar pousava em mim, tranquilo, aberto, sem pergunta, sem intenção.
Não consegui sustentar.
Olhei para baixo. Primeiro para os pés, grandes e firmes na poeira. Depois deixei o olhar subir. Para o centro do corpo, para onde o tecido se esticava, onde o sono ainda não o havia libertado por completo.
Ali algo se desenhava. Morno. Pesado. Desordenado. Não um sinal, não um convite. Apenas a dureza suave e silenciosa de um homem que nem o tecido conseguia esconder. Algo que cada fibra do meu corpo ouvia e compreendia. Um impulso mudo que me fazia saber que havia mais a amar do que aquilo que se mostrava abertamente.
O fôlego me faltou. Não por vergonha, mas por reconhecimento.
Ele não fazia nada.
Ele apenas estava ali.
Eu não me movi, embora tudo em mim quisesse fazê-lo.
Giorgio não disse nada.
Eu também não.
Mas eu sabia que havia reconhecido algo. Uma força quente e pulsante, crua e sem freios, gravada em mim de forma indelével.
