EPISÓDIO 10 – MORDI OS LÁBIOS
- Enzo

- 1 de fev.
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CANÇÃO
RELATO
O sonho ainda pairava entre nós, embora já estivéssemos caminhando novamente havia algum tempo.
As palavras de Giorgio não tinham sido ditas em voz alta nem de forma dramática. Ele as havia contado quase de passagem e, justamente por isso, tinham se depositado dentro de mim como algo que já não se pode apagar. Como poeira que entra nos poros e permanece. Como o gosto de uma maçã já comida, que continua na língua.
Caminhávamos lado a lado pelo caminho estreito que levava de volta ao vilarejo. Peppina avançava entre nós, tranquila, como se fosse a única capaz de manter aquele mundo em equilíbrio. Seus cascos batiam ritmados na pedra e na terra dura. A corda na mão de Giorgio pendia solta e, ainda assim, havia aquela evidência natural com que ele segurava, guiava, decidia. Não com dureza, não com brutalidade. Com segurança.
Eu queria ter perguntado por que ele tinha me contado aquilo. Se se arrependia. Se queria me pôr à prova. Ou se tinha sido algo que simplesmente lhe escapara, uma confissão sem intenção.
Mas não disse nada.
Eu carregava dentro de mim uma bela canção de amor. Mantinha-a escondida, não por vergonha, mas por prudência. A beleza, ali, era perigosa. A verdade, ainda mais. Na Sicília não se podia dizer o que se sentia. Não em 1926, não se se quisesse ficar.
E enquanto caminhávamos, mordi os lábios.
Por medo.
Não aquele medo que faz barulho, mas o silencioso e preciso. Aquele que sabe que basta uma palavra errada. Que a verdade pode custar os dentes. Que algo que talvez pudesse existir não se quebra suavemente, mas com um estalo seco e definitivo.
Mordi os lábios de novo.
A luz caía oblíqua entre as árvores. As folhas de oliveira ficavam mais suaves, as sombras mais longas, o dia perdia sua aspereza. Só o meu corpo permanecia tenso, como se retivesse algo que já deveria ter deixado ir.
Olhei para Giorgio sem virar a cabeça, apenas pelo canto do olho. É assim que se olha alguém que não se deveria olhar.
Ele caminhava calmo. Pesado. Próximo da terra. O suor tinha escurecido sua pele em alguns pontos e, quando o vento virou do jeito certo, eu o senti: sol, sal, trabalho. Uma masculinidade que não pedia nada e, justamente por isso, provocava tudo.
E então voltou aquela frase do sonho dele.
De joelhos.
Meu fôlego parou.
Eu tinha ficado de joelhos diante da igreja, diante do altar. Quando criança. Os joelhos sobre a pedra fria, as mãos juntas, o olhar baixo, Deus acima de mim.
Era parecido. E, ainda assim, completamente errado e certo ao mesmo tempo. Não humildade. Adoração. Uma prece que o meu corpo conhecia antes que a minha mente conseguisse lhe dar um nome.
É ele, pensei.
Porque caminhava ao meu lado como um fogo vivo, e eu era apenas ar, perto demais da chama.
Eu queria me ajoelhar. Queria rezar. Queria cair. Tão baixo que meu nome já não importasse. Como ele me tinha visto no sonho.
Mordi os lábios até sentir dor.
Peppina bufou de leve. Aquele som me trouxe de volta.
Giorgio olhou para frente e para trás, como se conferisse um caminho que conhecia até dormindo. Depois, um olhar rápido para mim, que se deteve. Um instante a mais do que seria casual. Olhei também. Estávamos sós.
Entre nossos passos havia um silêncio que não era vazio. Era cheio. Do sonho, do que nenhum dos dois dizia.
Então Giorgio disse, como se fosse um pensamento qualquer:
— E… o que você faz, afinal, com a velha casa de pedra dos seus avós?
A voz dele era calma. Factual. Deliberadamente factual. Como se escolhesse um fio que não queimava.
Precisei de um momento.
A casa dos meus avós. O cheiro de linho e poeira. A vida de duas pessoas que já não estavam mais ali. E agora: a minha decisão.
— Você quer vendê-la? — perguntou. Agora ele me olhava de verdade. — Ou fica com ela só para você?
Sozinha.
A palavra pousou na minha nuca como uma mão.
Eu não queria mais ficar sozinha. Queria estar ao lado dele, vê-lo sempre, senti-lo, tê-lo ao meu redor. A casa dos meus avós, em frente à dele, era o único álibi que eu tinha para permanecer perto. A casa dos meus pais ficava no centro do vilarejo. Longe demais daqui de cima.
Disse o que podia dizer.
— Não — disse com calma. — Não vou vender.
Giorgio assentiu de leve.
— Eu fico — acrescentei. — Há bastante coisa para fazer. Preciso arrumar as caixas. As roupas… e pôr tudo em ordem.
Ao dizer roupas, pensei nas calças grandes dele. No que continham. Em quanto eu desejava vê-lo sem elas.
Salvei-me com um sorriso:
— Para você, de qualquer forma, não haveria nada.
Giorgio arqueou uma sobrancelha.
— Como assim?
— Você é largo demais — disse. — Grande demais. Tudo ficaria pequeno demais em você. Não caberia em nada. Seus músculos rasgariam tudo — respondi com sinceridade.
Ele riu.
— Sim, nisso você tem razão — disse.
Depois, quase de passagem:
— Além disso, estas são as últimas.
Olhei para ele.
— Como assim?
Ele apontou para baixo com o queixo e segurou as calças pela barra, puxando-as um pouco para a frente. Não pude evitar fixar o vão que se abria. Por um instante pensei que ele fosse me mostrar o que elas escondiam.
— São as últimas calças inteiras que eu tenho — disse. — As outras… rasgaram. Por causa do trabalho. Das escaladas. Da tensão.
Ele soltou o ar devagar.
— Preciso mandar fazer umas novas assim que eu tiver um pouco de dinheiro de novo.
O tom era prático, mas por baixo eu sentia algo: cansaço. Talvez também orgulho. Era um homem que não jogava nada fora enquanto ainda servisse.
Ele olhava para a frente, não para mim, mas eu sentia que, ainda assim, sabia que eu absorvia cada palavra.
— Não posso sair por aí meio nu todos os dias — disse, seco.
A frase era uma brincadeira. Uma frase simples.
Em mim, porém, cortou fundo. Como uma faca quente na manteiga.
Nu. Sem roupas. Como Deus o tinha feito.
Mordi os lábios.
Eu o vi de novo sob as oliveiras. Não apenas de torso nu, mas numa imagem que logo se tornou quente demais. Suado, vestido apenas por uma rede de veias que me capturava sem que eu quisesse. Eu não teria nada contra vê-lo andar nu todos os dias, mas:
— O vilarejo falaria — disse em voz baixa, mais como um pensamento em voz alta.
Giorgio riu curto. Mais duro, dessa vez.
— O vilarejo sempre fala.
Depois, mais calmo:
— Mas é. Você tem razão.
E ali estava de novo a realidade. Falariam dele mesmo que não tirasse nada de ninguém.
O sonho, porém, ainda estava ali. Silencioso. Pesado. Ardente como um fogo que fazia ferver tudo dentro de mim.
— Você estava de joelhos.
Essa frase não me deixava. Eu a ouvia o tempo todo no ouvido interno. Meu corpo reagia como se estivesse presente. Como se Giorgio não tivesse apenas me contado um sonho, mas mostrado uma possibilidade para fechá-la logo em seguida.
Eu queria perguntar. Por que no seu sonho eu estava de joelhos? Você estava nu, eu estava? Você realmente me alimentava só com maçãs? Eu queria dizer: não tenho fome apenas das suas maçãs. Queria dizer: tira as calças e deixa eu me ajoelhar diante de você. Agora. Por que você vigiava o caminho?
Mas o risco pesava sobre mim.
E, ainda assim, na pergunta dele sobre a casa, no riso, no olhar, naquela franqueza sobre as calças rasgadas, havia algo como um fio. Uma possibilidade.
Nós nos aproximávamos do vilarejo. Ao longe ouviam-se vozes, um cachorro, metal contra pedra.
Eu o olhei. Desta vez por mais tempo. A última luz atingiu o rosto dele. Seus olhos pareciam mais claros, como o mar sob o sol. Talvez fosse apenas o céu refletido neles. Talvez algo mais.
Giorgio me olhou e sustentou o olhar. Um batimento do coração. Depois outro.
— Então você fica — disse.
— Fico — respondi, decidida, sem precisar pensar.
Ele assentiu. Um sorriso pequeno, quase invisível.
— Bom.
Só essa palavra.
Não “bom para o trabalho”. Não “bom para a terra”.
Só “bom”.
Mordi os lábios para não sorrir demais, esperançosa demais. Porque a esperança era perigosa.
Mas ela estava ali.
Como a última faixa de sol. Como uma maçã proibida e ardente. Como um sonho que não se deveria sonhar e que o corpo sonha mesmo assim.
Continuamos a caminhar. Em direção ao vilarejo. Em direção às regras.
E eu caminhava ao lado dele. Em silêncio. Ardendo. Com uma verdade dentro de mim que eu não podia pronunciar.
E com uma prece que eu não dizia em voz alta, mas guardava só para mim:
Deus, deixa-me ajoelhar diante dele e rezar.
